Quando se tenta perseguir a virtude aos seus extremos, o vício emerge', escreveu Pascal. Outra não foi a conclusão de Montesquieu, no Espírito das leis: 'Leis extremas para o bem engendram males extremos'. A história da ética e dos códigos legais ilustra a pertinência do preceito de inspiração socrática inscrito no templo de Apolo - Nada em excesso - e que seria depois retomado, elaborado e sistematizado pela ética aristotélica. Em Contra a transparência, Hamilton dos Santos oferece um lúcido, sereno e oportuno adendo a essa linhagem argumentativa: uma análise do capcioso apelo e dos riscos inerentes ao ideal da transparência radical como um 'fármaco moral infalível'. Mal dosado, o remédio é tóxico: injeta e destila veneno. O corpo vê-se, o coração adivinha-se. Imagine um choque de absoluta transparência: um mundo em que tudo o que nos vai pela mente - nossos pensamentos e desejos, fantasias e intenções, por mais secretos, caprichosos e recônditos - torna-se inteiramente acessível, como livro aberto, às pessoas com quem convivemos. O que decorreria? O abalo, claro está, seria devastador. É difícil imaginar que algum casamento, namoro, relação familiar ou amizade sobrevivesse ao terremoto. O mesmo vale para as nossas relações profissionais, civis e no mundo corporativo, sem esquecer do que isso implicaria para as figuras de proa e maior visibilidade na cultura, na mídia e na política. 'Entendemo-nos porque nos ignoramos', como diria Fernando Pessoa. É plausível, talvez, supor que ultrapassado o trauma do choque e de suas sequelas desagregadoras a convivência interpessoal caminhasse para algum novo tipo de equilíbrio baseado em outras - e por ora ainda ignoradas - formas de sociabilidade. O que é certo, entretanto, é que a extinção da privacidade do nosso mundo mental e a exposição pública nua e crua do inescapável hiato entre ser e parecer deitariam por terra um alicerce fundamental e constitutivo de tudo que até hoje conhecemos por vida civilizada - e não só no moderno ocidente. O que há de errado com o clamor pela 'transparência total'? O livro articula dois argumentos centrais. O primeiro é o de que se trata de uma quimera inexequível, uma vez que não só 'faltou combinar o jogo com a natureza humana' como, além disso, é preciso lembrar que 'toda luz seleciona, todo ver pressupõe filtros e toda transparência institui, ao mesmo tempo, novas opacidades'. E, o segundo, é o de que, mesmo exequível, isso seria indesejável na medida em que sua adoção e imposição 'corrói a confiança, empobrece a responsabilidade e obscurece justamente aquilo que promete revelar'. O terror de um mundo em que ninguém mais tem algo em sua vida em relação a que tenha de fingir ou mentir porque tudo está permanentemente à vista dos outros.